Um livro belo do começo ao fim. Embora clichê, esse é o melhor adjetivo para descrever esse livro. Contudo, não há palavra que seja capaz de expressar o que é a experiência de leitura de Phantastes. Assim como de tantos outros livros que nos marcam, esse desperta um sentimento único, como um perfume, uma música, difícil de explicar, porém perceptível à nossa consciência.

São as imagens formadas na narrativa que mais nos marca durante a leitura. Elas passam através do leitor com uma força sem igual. Belas imagens, cheias de significado e sensibilidade.

Confesso ter sentido um estranhamento ao iniciar a leitura, um sentimento que pareceu o oposto do observado em Anodos. A aventura do jovem Anodos inicia após ele contemplar uma fada, uma minúscula fada que sai do armário que ele ganha de presente de seu pai. É ao acordar pela manhã seguinte que o jovem descobre a estranheza de seu quarto, é quando sua jornada no mundo das fadas tem início.

A rápida aceitação de Anodos é uma das causas dessa estranheza. Ao invés de se desesperar, de procurar uma saída daquele lugar, ele passa a explorá-lo, calma e resolutamente. Ele vê cada vida que se move na floreste, ele sente tudo ao seu redor, e junto a ele estamos nós, leitores, recebendo toda essa carga sensível, até o momento em que passamos a aceitar a história também.

Entre as belas descrições, os poemas e as músicas, nos são apresentadas histórias paralelas no mundo das fadas, contos que revelam a extensão e o poder da fantasia criada pelo autor. A intimidade com que Anodos vai revelando seus pensamentos, seus medos e anseios não nos torna aptos a prever qual será sua próxima ação. Como em um sonho, em uma verdadeira ilusão, cenas vem e vão, um acontecimento dá lugar ao outro, em um ritmo quase ilógico. Ao mesmo tempo, vamos pouco a pouco entendendo melhor a razão de cada acontecimento, o crescimento de Anodos vai tomando forma, talvez a mensagem profunda por trás da odisseia do personagem.

No entanto, MacDonald não se presta ao serviço de pregar uma moral disso ou daquilo, e mais do que extrair um conhecimento profundo da leitura, a sensação que temos ao término é a do momento de contemplação ímpar que desfrutamos com o livro. Aquele Anseio do qual falava Lewis, que também está presente na obra de MacDonald, claramente influenciado por Novalis, é perceptível ao longo de toda narrativa, sentimos ele, compartilhamos dele com Anodos.

É quase impossível não perceber a influência de MacDonald na escrita de autores como Tolkien e Lewis. Diversos aspectos presentes na história e a própria força da fantasia revelam de maneira sutil como o imaginário do autor serviu de inspiração a eles, a “arte mitopeica” na qual, segundo Lewis, George MacDonald se distingue.

“Por que todas as reflexões são mais atraentes do que aquilo que chamamos de “realidade”? Talvez não tão tremendas e poderosas, mas sempre mais fascinantes? Bela no deslizante barco no mar brilhante, a vela oscilante, trêmula, irrequieta é ainda mais formosa quando refletida nas águas. Sim, o próprio oceano que reflete, ao ser refletido no espelho, tem uma magnificência em suas águas que, de algum modo, desaparece quando me volto para ele. Todos os espelhos são mágicos. O mais simples aposento torna-se um poema quando eu o vejo através do espelho.”

George MacDonald – Phantastes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s