Mundos Mortos é o primeiro romance da coleção Tragédias Burguesas e também o primeiro do gênero publicado pelo escritor Octavio de Faria.

Quem foi Octavio de Faria?

Creio que como eu, antes do vídeo do professor Rodrigo Gurgel, você também jamais tenha ouvido falar no nome do autor. Octavio de Faria foi um crítico, ensaísta, romancista e tradutor brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. Mundos Mortos, seu primeiro romance, foi pensado como o início de uma obra cíclica sob o título de Tragédia Burguesa. Quinze volumes foram publicados, sendo que dois deles foram publicados postumamente.

Em Mundos Mortos, Faria inicia seu projeto de romance que explora a burguesia carioca e seus problemas sociais ao mesmo tempo em que refletem os problemas do homem. Embora seus personagens sejam jovens, o autor dá ênfase ao caráter da influência que as escolhas nessa fase têm sobre a vida adulta.

Há quem afirme que a obra como um todo seja só comparável a Comédia Humana de Balzac, ao célebre trabalho de Proust com Em Busca do Tempo Perdido ou às obras de Dostoiévski, em termos de exploração psicológica e social. Por que essa grande obra foi então condenada ao ostracismo? Eu não saberia responder essa pergunta, mas talvez lendo o livro você entenda.

Embora Mundos Mortos narre a história de três rapazes, não temos um personagem principal como em outros livros. Aqui o foco muda constantemente enquanto o leitor faz uma imersão nas vidas de Ivo, Roberto e Carlos Eduardo. Somos apresentados a esses três jovens e seus problemas e dúvidas com relação a vida que desejam ter. Crenças, ideias e desejos fragmentados e inconstantes refletem o dilema da vida deles, em especial a de Ivo e a de Roberto. Ambos são estudantes do mesmo colégio, no entanto de anos diferentes.

Ivo é o irmão mais velho de Carlos Eduardo. O irmão mais novo é reconhecido por demonstrar virtudes intelectuais e espirituais “fora do comum”, enquanto seu irmão Ivo, embora seja também um garoto de boa índole, começa a sofrer uma terrível luta interna, balançando entre mundos opostos.

O aspecto que mais se sobressai na leitura é a experiência psicológica na qual o leitor mergulha. Com uma narrativa altamente intimista, Faria nos leva ao mais profundo de seus personagens demonstrando um grande conhecimento não apenas deles, mas também da alma humana. As lutas internas, as noites mal dormidas, etc. tudo se reflete num fluxo de pensamento que ameaça escapar das páginas e que surpreende pela grandeza com que é descrito.

A leitura em si não foi cansativa, exceto em trechos da primeira parte sob o ponto de vista de Ivo, trechos nos quais Ivo muda de ideia a todo instante, sendo terrivelmente ingênuo em alguns momentos. Entretanto, a tudo Farias nos faz refletir, em um grande exercício de empatia. A natureza inconstante de Ivo nada mais é do que o reflexo de muitos jovens na vida real, que lutam para se manter íntegros em meio às tentações, mas que acabam perdendo a fé e se entregando por fim.

Carlos Eduardo, seu irmão, representa o outro extremo. Uma esperança para os padres do colégio no qual estuda, seu caráter íntegro é incontestável.

Padre Luis é um dos, senão o mais, notável dos personagens. Com uma ampla sensibilidade e preocupação pelo futuro dos jovens, ele aconselha, conversa, intercede e faz o possível para que eles percebam a natureza de seus conflitos. Diferente dos outros padres da escola, padre Luis se compadece dos sofrimentos daqueles garotos, ele sente a necessidade de ajudá-los da melhor forma possível, embora alguns deles não percebam isto.

Faria é um romancista católico que escreve sobre a problemática adolescente nessa perspectiva. Os temas são pesados e ainda que retrate adolescentes, a perspectiva é diferente, o contexto é diferente. Mundos Mortos é um grande livro da nossa literatura que merece ser conhecido.

MUNDOS MORTOS - Livraria Martins Fontes Paulista | Estante Virtual

Livro: Mundos Mortos – Tragédia Burguesa vol.1

Autor: Octavio de Faria

Editora: Sétimo Selo

Ano de Publicação: 2021 – nova edição (Original de 1937)

Onde encontrar: Amazon

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