Realmente a escrita de Hesse é poética. Este foi meu primeiro contato com um livro do autor, e já consegui perceber isso. O livro despertou em mim esse sentimento de familiaridade poética que a escrita poderosa tem de nos comunicar, como que fluindo o pensamento do autor, suas palavras, em um ritmo, uma cadência tão bela, tão natural, que torna a experiência do leitor um mergulho no que há de mais perfeito em termos de literatura.

Não tenho o “cacife” necessário ainda para julgar os pormenores de obras desse tipo, mas como leitor posso dizer que sim, fui tocado pela escrita de Hesse. Enquanto caminhamos junto a Sidarta, aprendemos com ele, vemos através de seus olhos o descortinar da natureza humana, o profundo e o que não é acessível para todos, mesmo aqueles que buscam, que dedicam a vida a essa jornada.

Sidarta começa a questionar sua própria realidade, seu próprio eu. Afirmando que nem seu corpo, nem seu pensamento chega a ser esse “eu” que ele tanto busca. E que nessa busca desenfreada ele, Sidarta, acabou calando esse eu, ao quase “calar” o que aparentemente lhe torna humano, indo ao limite, ele desviou a atenção desse “eu” que ele achava estar buscando.

Percebemos um pouco do extraordinário que é o “viver”, deixamos o panorama geral em busca de verdades pequenas, mas universais, sentimentos que brotam do fundo da alma em forma de prosa, que se torna ação, sutil, nas andanças de Sidarta. Leveza é o que sentimos ao término da leitura depois da experiência, quase terapêutica, de ver refletidos ali na história tanto de nós mesmos.

“Amava o olhar de Sidarta, a voz meiga, a postura, a primorosa correção dos gestos; amava tudo quanto Sidarta fazia ou dizia; e, antes de mais nada, amava-lhe o espírito, os pensamentos sublimes, fervorosos, o ardor da vontade, a alta vocação.”

Govinda é o melhor amigo de Sidarta, e como tal ele decide partir junto do amigo nessa busca. Longe de casa os dois seguem por caminhos cheios de descobertas sobre o mundo e os próprios limites de suas almas. No entanto, Sidarta sempre permanece insatisfeito, falta-lhe algo, e ele não consegue perceber o que é. A partir daí, a história dos dois amigos permanece unida até o encontro deles com Gautama, que personifica o verdadeiro Buda (Sidarta Gautama, na história real). Mesmo reconhecendo o grande feito de Buda, Sidarta finalmente percebe que jamais atingirá o que tanto anseia pelas doutrinas de outros, mas é somente sozinho que achará o que tanto procura.

“Eu, porém, que almejava ler o livro do mundo e o livro da minha própria essência, desprezei os sinais e as letras, em prol de um significado que lhes atribuía de antemão. Chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. Considerei meus olhos e minha língua apenas aparentes, casuais, desprovidos de valor. Ora, isso passou. Despertei. Despertei de fato. Nasci somente hoje.”

Fica bem evidente nessa passagem um tema constante em Sidarta, a valorização da experiência em em face da cultura letrada, o que Luiz Carlos Maciel no prefácio do livro alude à cultura hippie pela qual Hesse se interessava. Maciel afirma que Hesse dava ênfase a esse “caráter insubstituível da experiência viva”, o que sugere uma visão individualista.

“Quem matasse o eu casual dos sentidos, e, em compensação, alimentasse o eu igualmente casual do pensar e da erudição não alcançaria nenhum objetivo. Uns e outros, os pensamentos tanto como os sentidos, eram coisas bonitas. O derradeiro significado jazia, porém, atrás de ambos. Era preciso ouvir os dois, brincar com eles, sem desprezá-los nem superestimá-los. Cumpria depreender de tudo quanto dizia a voz secreta do nosso íntimo.”

Hesse parece aludir aqui a importância de se cultivar os dois saberes, sem excluir um ou outro, mas focar em ambos, um equilíbrio entre sabedoria e conhecimento.

“Tudo flui, nada permanece o mesmo.” Essa frase de Heráclito resume bem um dos principais ensinamentos e preceitos desse livro. Enquanto Sidarta contempla as águas do rio, ele aprende. Aprende que nada permanece, mas que como o rio, sem início nem fim assim também é o tempo. Aprende que como o rio tudo flui, as mazelas, tristezas, o passado que já foi presente, o futuro que se torna presente para depois virar passado, essa linha contínua, bela e impiedosa, que tudo muda, que tudo faz passar também. Escutar, aguardar e ter paciência.

A descoberta do caminho “pelas suas próprias forças” é algo que Sidarta tem de aprender a fim de lidar com seu filho. Aprender a aceitar que como ele quando jovem, seu filho pode estar sujeito ao erro, aos sofrimentos, as próprias escolhas, ao seu próprio destino. “Tudo voltava, todos os sofrimentos que não tivessem encontrado uma solução final. Era preciso suportar sempre as mesmas aflições”.

Outras marcações:

“Lentamente desabrochava e amadurecia no espírito de Sidarta a percepção, o conhecimento daquilo que na verdade significava sabedoria e devia ser a meta das suas buscas prolongadas.”

“Escrever é bom. Pensar é melhor. A inteligência é boa. A paciência é melhor” (Sidarta – Hermann Hesse).

Livro: Sidarta

Autor: Hermann Hesse

Editora: Record

Onde encontrar: Amazon

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